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Dia de Clássico

Visto da bancada Sul

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Visto da bancada Sul

02
Jun12

Futebolês#129 Encaixe*

Eduardo Louro

Encaixe é certamente o campeão dos homónimos em futebolês. Começou por surgir ao redor do guarda-redes, como se fosse uma linha de baliza ou os limites da pequena área, para significar aquele gesto técnico com que eles transmitem confiança e tranquilidade. Aos seus companheiros e aos seus adeptos!

É aquele gesto de segurar a bola bem apertada entre os antebraços e o peito. Dali não foge! Foi caindo em desuso à medida que os guarda-redes iam perdendo, mais que a segurança, a educação e o cavalheirismo. Em vez de a aconchegar contra o peito e de a proteger, como é digno de uma donzela, passaram a socar a bola ou dar-lhe uma palmada!

Com tão incompreensível mudança de atitude, os guarda-redes mantiveram, mesmo assim, a expressão no seu domínio. Não admira que, quando deixaram de tratar a bola com a ternura e o carinho que merece para passar a agredi-la a soco e à palmada, tivessem deixado de encaixar a bola e passado a encaixar golos. Surgia então um novo homónimo!

Com a financeirização – desculpem o neologismo – que passou a tomar conta do futebol ainda antes de tomar conta do mundo, o encaixeabandonou o domínio dos guarda-redes e passou para o domínio de outros agentes do jogo bem mais importantes: os agentes de jogadores, também chamados, impropriamente, de empresários do futebol. Impropriamente porque, empresários de futebol, só há um em Portugal: Joaquim Oliveira, evidentemente. Jorge Mendes, não. Esse é um agente do jogo, tão claramente que até foi recentemente homenageado por Miguel Relvas por mérito desportivo!

Os clubes passaram a procurar fazer encaixes de qualquer forma, nem que fosse ao murro e à palmada. Nem por isso enriqueceram - isso ficou para os agentes de jogadores – porque logo a seguir a um encaixe gastam como se tivessem feito dez! Isto quando não o gastaram antes de qualquer encaixe, ficando depois à espera de um milagre para ir amortizando pedacinhos de dívida. Como aconteceu ao Sporting. Estas coisas acontecem sempre ao Sporting!

Na época passada gastou à fartazana, e sem qualquer encaixe. A última vez que alguma coisa semelhante se passara tinha sido com uma maçã podre. Não admira, quando são eles próprios a desvalorizar a própria fruta, de que é que estão à espera?

Valeu-lhes na altura que havia alguém tão dado à fruta que nem tinha mal nenhum que fosse podre!

No Sporting, a ânsia de encaixe é tal que venderam o João Pereira com desconto de fazer inveja ao Pingo Doce. Esperar pela valorização do rapaz no europeu? Qual quê?

Espero que não venham a ser acusados de dumping. Não estou a ver o António Salvador a aceitar factura nenhuma, como os fornecedores dos outros tiveram que aceitar…

Mas não se pense que nisto de encaixe tudo o que o Sporting faz é mal feito. Tem também o mérito de ajudar o futebolês, fazendo regressar oencaixe ao domínio do guarda-redes, donde, como vimos, há muito fugira. É para aí, precisamente para o guarda-redes, que agora aponta as baterias de novo encaixe - do único que provavelmente lhe restará – esperando, agora sim, que o europeu lhe acrescente uns trocos. Provavelmente é uma questão de falta de confiança na selecção: acreditam que a baliza da selecção vai ser tão fustigada que alguma coisa haverá de sobrar para o Rui Patrício brilhar.

Mas a necessidade de encaixes não é exclusiva de Alvalade. Na Luz e nas Antas os encaixes são outros, mais vistosos, mas nem por isso menos necessários.

No Benfica, no entanto, ainda só se compra. Não sei se à grande e à francesa, mas por enquanto só desencaixa. Já no Porto é diferente. Ali há gestão de excelência!

O Cebola já foi de borla. Para o Atlético de Madrid, de onde ainda não chegou o encaixe do Falcao. Já para o Hulk é o decalque exacto da estratégia Pingo Doce: 50% de desconto! Ainda não se sabe é se o Abramovich não vai querer descontar o que pagou pelo barrete do ano passado…

* Rubrica semanal do Quinta Emenda

26
Mai12

Futebolês#128 Modelo de jogo*

Eduardo Louro


 

Por muito que o segredo seja a alma do negócio – regra que no futebol vale mais que em qualquer outro lado -, que a surpresa – o tão valorizado factor surpresa – seja tantas vezes um dos grandes desequilibradores de jogo, a verdade é que lá está sempre o modelo de jogo como forma de sistematizar a abordagem do dito.

modelo de jogo não se esgota na estratégia, e muito menos na táctica escolhida para cada jogo. Quer isto dizer que o modelo de jogo é algo de mais profundo, é aquilo que vai para além da estratégia e da táctica. Porque é a forma como se faz, como se executa uma determinada estratégia. Traduz-se numaideia de jogo ou, mais do que isso, numa filosofia para o próprio jogo.

É, nessa medida, a matriz, o lado institucional e estrutural do jogo. Sem modelo de jogo a equipa anda à deriva, sem guião. Pode saber o que quer fazer, mas não sabe como fazer. Sem noção de colectivo, com cada jogador por si, perdido num colectivo que não comunica, sem fio condutor…

È por isso o lado do jogo que não permite surpresas nem guarda segredos. O mais famoso – e também o mais bem afinado – modelo de jogo é, sem dúvida, o do Barcelona. É tão óbvio que nem vale a penas gastar mais uma linha a justificá-lo!

A selecção nacional, que em breve irá dar o pontapé de saída no euro 2012, tem um modelo de jogo. Que há muito tempo está definido e instalado, e que só em momentos de desvario – que não têm sido assim tão poucos como isso, basta lembrarmo-nos do período de desnorte de Carlos Queiroz – é esquecido. Tem a ver com o próprio perfil do jogador português, de base mais técnica que física. É um modelo de passe curto, de posse de bola e de repentismo, de pensamento e de execução rápida.

Daí Hugo Viana. Que tinha feito uma boa época no Braga, onde foi decisivo naquele modelo de jogo e que, só por isso, mereceria, na óptica de muitos dos adeptos do futebol – e aqui sem clubismos que invariavelmente cegam e turvam a lucidez da análise -, a convocação para o europeu. Merecimento que teria de ser visto precisamente como um prémio ao seu desempenho durante a época!

Paulo Bento justificou, logo na apresentação das suas opções de convocatória, que Hugo Viana não cabia no modelo de jogo da selecção. E, friamente, toda a gente teria de lhe dar razão: Hugo Viana não se integra nomodelo do passe curto e de posse da bola, do drible e da velocidade, com bola ou em desmarcação. Pelo contrário, faz da visão e da precisão do passe longo a sua grande vantagem comparativa!

Acontece aos melhores. São muitos os exemplos de jogadores de excelência que se não integram em determinados modelos de jogo. Lembramo-nos de Ibrahimovic, que não cabia claramente no modelo do Barcelona!

Claro que há jogadores que, por si só, impõem a definição de um modelo de jogo ajustado às suas características. Mas, para isso, terão que ser eles próprios maiores que a equipa. E umas vezes não o são e, outras, é a equipa que não permite que o sejam. Lembremo-nos de Jardel que, sendo nos seus tempos áureos o fabuloso goleador que o mundo conheceu, nunca teve oportunidade de jogar numa grande equipa europeia e mundial, nem de chegar à selecção do seu país.

É por tudo isto que a convocação de Hugo Viana, logo que a oportunidade surgiu, é estranha. Não pelas suas qualidades, nem sequer porque, na tal lógica de prémio, não o merecesse. Apenas porque o modelo de jogo da selecção, ao que se saiba, não vai ser alterado. E porque não fazem sentido nenhum as suas próprias palavras, segundo as quais se iria esforçar para se adaptar ao jogo da selecção!

Assim sendo, não fazendo sentido, só resta admitir que a sua convocação se deve a factores externos ao processo de decisão do seleccionador. Que não terá resistido às pressões que sofreu para o convocar!

Se o que parece é, estaremos perante o colapso de um dos principais pilares do edifício de Paulo Bento. E sabe-se como é: quando um pilar cede, os restantes não são suficientes para manter a coisa de pé.

E por falar em pé, o mais provável é que Hugo Viana não o chegue a pôr nos relvados da Ucrânia. Se assim for esperemos que o lugar que está a ocupar entre os 23 não venha fazer falta nenhuma. Que nunca nos lembremos que só lá está um lateral esquerdo... Porque o Miguel Veloso tem mais vocação para modelo (e não é de jogo) que para lateral esquerdo!

 

* Rubrica semanal no Quinta Emenda

12
Mai12

FUTEBOLÊS#126 VERDADE DESPORTIVA*

Eduardo Louro


 

 

Verdade desportiva é seguramente o jargão do futebolês mais utilizado nos tempos que correm. Particularmente neste final de época!

verdade desportiva é como qualquer outra verdade. É verdade que esta verdade anda à volta uma ideia mítica de correspondência entre o desempenho puro – bacteriologicamente puro – e o resultado produzido. Mas não deixa de ser verdade que cada um tem a sua verdade!

Verdadeiramente complicado!

A verdadeira fórmula de iludir a verdade desportiva é criar várias verdades desportivas. Se cada um tem a sua veja-se bem quantas podem existir, e de como é fácil iludir a verdadeira verdade desportiva. Que nem se chega a saber qual é!

Para baralhar mais isto há ainda quem, mesmo tendo a sua verdade desportiva, trate de arranjar mais umas quantas mentiras desportivas que, claro, vai apresentar como mais umas quantas verdades desportivas. Não há verdade desportiva que resista...

Mas como se isto não bastasse há ainda verdade desportiva produzida em laboratório. Não, não é essa, a bacteriologicamente pura. É a que é produzida nos programas desportivos das televisões onde, mesmo sem bata branca, estão aqueles cientistas que representam cada uma das três marcas que dominam o mercado.

Conseguem autênticos milagres, que só os não são porque, como se sabe, a ciência – de que são os mais ilustres representantes – não tem, nem quer ter, nada a ver com milagres.

Num desses programas, um deles, anda desde a terceira jornada do campeonato a dizer que, na sua verdade desportiva, o seu Sporting tinha mais dez pontos. Não é milagre mas está lá perto: ainda só estavam disputados nove pontos e já se declarava injustiçado em dez!

Para que o programa mantenha algum equilíbrio e não desate a inflacionar o mercado  de verdades desportivas, mesmo ao lado, está outro que não se mete nessas coisas. Acha mais apropriado conviver com a verdade desportiva oficial, de preferência à mesa de um ex-líbris da boa mesa da capital!

Por outro desses programas passa um outro que também se esforçou ao longo de todo o ano por criar uma verdade desportiva. Nessa, o seu rival foi escandalosamente beneficiado em dez jogos e, eventualmente, ligeiramente prejudicado em três. Já o seu próprio clube, esse, foi sempre prejudicado, mas não é razão para se queixar…

Pois é, a verdade desportiva é uma treta. Essa é que é a verdade que afinal eles perseguem…

Mas nem por isso deixará de ser verdade que há verdades que são mentiras enormes. E essas são como o algodão: não enganam!

Validar um golo irregular nos últimos momentos de um jogo decisivo, ou transformar uma agressão a um avançado dentro da área numa falta desse mesmo atacante, num daqueles jogos em que se percebe que a bola não quer entrar. Levantar os braços e mandar seguir a dança quando o defesa abalroa – uma vez, duas vezes – o avançado contrário dentro da área, na parte final de um jogo que carimba o título. Encontrar sempre um penalti que em tempo útil desbloqueie um jogo que começa a complicar-se ou assinalar o penalti que convém quando a bola toca no ombro de um jogador que, de costas e em movimento rotativo, salta à entrada da área, e já não o assinalar quando outro deliberadamente – porque sabe que está protegido – a corta no interior da sua área. Expulsar um jogador que, depois de lhe ser assinalada um falta, deitado no chão, bate com a mão na relva, mas não expulsar outro que, a um metro da baliza, derruba por trás o adversário e o impede de fazer golo. Ou mesmo incompreensíveis quebras sucessivas de energia no estádio, para provocar idênticas sucessivas quebras de ritmo de jogo, são apenas alguns sacos dos cheios de pedacinhos de algodão…

E, já agora, será que também haverá verdade desportiva na atribuição do título de melhor marcador? Sendo, para além da definição de quem a acompanha a desgraçada União de Leiria na viagem para a Segunda Liga, a única decisão guardada para a última jornada, será que faz sentido que o Sporting - Braga seja jogado duas horas depois dos restantes jogos?

É que, se o Cardozo não tiver marcado em Setúbal, nem o Hulk feito três golos em Vila do Conde, ao Braga bastará deixar o Lima no banco para que seja ele o vencedor desse troféu!

 

* Rubrica semanal do Quinta Emenda

05
Mai12

FUTEBOLÊS#125 LINHA DE ÁGUA *

Eduardo Louro

A linha de água do futebolês não tem nada a ver com a linha de água de um curso da dita. Não é novidade, acontece em muitos outros casos!

Mas tem algumas semelhanças. Por exemplo, como há cursos de água inquinada, poluída e muito mal cheirosa, também a linha de água está muitas vezes inquinada. E com muito mau cheiro!

Mau cheiro, nauseabundo mesmo, que se agrava à medida que o campeonato se aproxima do fim. Nesta altura, à entrada da penúltima jornada, é já insuportável. Abaixo dela morre-se asfixiado, em vez de afogado.

A União de Leiria passou praticamente toda a época abaixo da linha de água, sem poder respirar e fazendo aí tudo o que havia a fazer. Talvez seja por isso que é hoje apontada como responsável maior pelo mau cheiro que de lá vem. Foram muitos meses lá debaixo, e sabe-se como são as necessidades… Mesmo que, com os jogadores sem receberem salários, os estômagos nunca se tenham dado a grandes exageros e tenha havido grande contenção digestiva. O pior era mesmo o presidente, que sozinho e pela boca, poluía mais aquilo que os jogadores todos pelas vias normais. Quanto menos eram os jogadores a esbracejar e a fazer pela vida lá debaixo, à medida que iam partindo à procura de um bocadinho de ar e de uma bucha para matar a fome, mais porcaria o presidente mandava boca fora…

A União de Leiria já não está abaixo da linha de água. Está um bocado mais fundo, já debaixo da linha da merda. Que, como se sabe, acaba sempre por acamar lá mais para o fundo, à espera que ninguém chafurde. Quem a deixem em paz e esquecida!

Assim andou durante muitos anos. Ou assim permitiram que andasse muitos e muitos anos…

E quem sabe se assim não irão continuar a permitir durante mais alguns? Os alargamentos andam para aí…

Quem lá foi também parar, surpreendentemente ou talvez não, foi a Académica, com um presidente que também mostra particular tentação pela chafurdice. Depois de ser considerada a equipa sensação da primeira fase da época, com um treinador também sensação – que até parece que esteve com meio rabo na cadeira de sonho – deixou de ganhar jogos, mesmo aquele, há pouco mais de dois meses - na altura certa - que um senhor tudo fez para que ganhasse. Mas não era isso o mais importante, o mais importante mesmo era que não fosse o adversário a ganhá-lo. Já lá vão uns dezasseis jogos a marcar passo e, claro, por muito que se queixem daquela vergonha de onze contra oito do passado domingo na Marinha Grande, não há milagres!

Abaixo da linha de água, de outra mas também com grande falta de ar, está Jorge Jesus. A falta de ar notou-se na entrevista (cuidada e, finalmente, com ares de orientação da parte da estrutura de comunicação da Luz) que deu a A Bola esta semana, quando, a propósito da paródia de ir para o Porto, respondeu: “FC Porto? Quem chega ao topo não quer andar para trás!”

Bem dito! Mas nunca, sem falta de ar, diria coisa semelhante… Pode ser que lhe faça bem!

 

* Rubrica do Quinta Emenda

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